A mãe e o monstro

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Virei um monstro.
Mas foi em legítima defesa da pele de Sofia.
Ela chora, um chorinho só, sem continuidade. Quase entre um lamento e um gemido. Para logo, então nem me atrevo a entrar no quarto onde as duas dormem. Afinal, não se mexe em quem está quieto é meu novo lema de vida.
Poucos minutos depois, a mesma coisa. Dessa vez, entro. É a casa nova do pai, quarto novo ainda não montado completamente, ela pode estar estranhando. Nada. Ela está dormindo, o único sinal de desgosto é um franzir de lábios, quase imperceptível para qualquer outra pessoa.
Não para mim.
Mesmo contrariando meus instintos e meu lema, acendi a luz. Vasculhei o quarto, apertando os olhos, sem sucesso.
Voltei pra sala, inconformada. O pai ainda aventou a possibilidade de ser um pesadelo – afinal, bebês tem pesadelos terríveis, segundo um artigo que li. E olha, quem não teria, ao ser exposto de repente a esse mundo louco, cheio de barulho, luzes e cheiros? Tenho 39 anos e acho que ainda não me acostumei, imagine elas.
Eu sabia que não tinha sido um pesadelo. Conheço os gritos das minhas filhas – já os ouvi bastante – e sei quando gritam de dor.
Fico de prontidão no corredor, atenta ao menor ruído. E dessa vez, quando Sofia começa a gemer, eu já estou no quarto, luz acesa, procurando o inimigo.
Vejo quase imediatamente. Uma mancha escura no rosto delicado da minha filha!
Uma mancha com asas e pernas! Uma mancha BEM GORDINHA DE TANTO PICAR MEU POBRE BEBÊ!
Sim, um mosquito. Passados os primeiros 5 segundos de pânico – tem manchas brancas? Será que é o aedes? – verifico que é daqueles mosquitos comuns, sem as tais manchas. Ele – ou ela? Acho que li em algum lugar que mosquitos-fêmea são os que mordem – está tão inchado que não consegue voar. Controlo toda a minha fúria e delicadamente pouso a mão na bochecha (QUE SÓ EU POSSO MORDER), conseguindo tirar aquele ser horrendo sem acordar minha pequena indefesa.
Quero arrancar aquelas patas nojentas uma por uma. Puxar as asas bem lentamente para torturar aquela criatura nefasta. Depois, empalá-lo com um alfinete para que morra devagar, para que seus últimos pensamentos sejam de arrependimento por ter incomodado a filha da pessoa errada.
Aí eu penso na sujeira que vai ser, com aquele bucho cheio de sangue (DO MEU POBRE BEBÊ). Satisfaço minha fúria afogando o mosquito na pia e olhando com prazer quando o inseto desce pelo ralo.
Dia seguinte, o rostinho de Sofia tem marcas inchadas e feias. Fico a chamando de ‘fast food de borrachudo’ e morrendo de vontade de matar aquele miserável mais umas cinco vezes.
Mina? Não tem uma marca de mordida de mosquito e dá risadinhas debochadas quando a irmã choraminga por causa da coceira.

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Author: anacristinarodrigues

Eu trabalho numa biblioteca. Estudo História. Escrevo. Leio. Traduzo. Uma traça que fala, basicamente.

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